Você já abriu o Instagram, se deparou com uma sequência de corpos “perfeitos” e fechou o aplicativo se sentindo pior do que antes? Ou passou alguns minutos rolando o feed do TikTok e, mais tarde, percebeu que sua relação com a comida tinha ficado estranha — como se você precisasse compensar, controlar, restringir?
Se sim, você não está sozinha. Essa sensação tem nome, tem explicação científica e, principalmente, tem caminhos possíveis dentro da psicoterapia.
A relação entre redes sociais e transtornos alimentares é hoje um dos temas mais estudados pela psicologia contemporânea — e também um dos mais negligenciados na vida prática. Não estou aqui para demonizar plataformas ou pedir que você apague todos os aplicativos do seu celular. Como psicóloga, o que vejo no consultório é mais sutil: pequenos hábitos digitais que, somados, vão moldando como você enxerga seu corpo, o que considera “comida saudável” e até quando sente que merece comer.
Redes sociais e transtornos alimentares: por que essa relação importa tanto
Antes de qualquer coisa, alguns dados. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos alimentares estão entre as condições de saúde mental com maior taxa de mortalidade, e sua prevalência tem crescido especialmente entre adolescentes e mulheres jovens nas últimas duas décadas — o mesmo período em que as redes sociais se popularizaram em escala global.
O DSM-5, manual de diagnóstico utilizado por psicólogos e psiquiatras, descreve quadros como anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno da compulsão alimentar periódica e transtorno alimentar restritivo evitativo (ARFID). Cada um tem suas particularidades, mas há algo em comum entre eles: envolvem uma relação alterada com a comida, com o corpo e, quase sempre, com a própria identidade.
Diversos estudos publicados em revistas científicas como o International Journal of Eating Disorders e o JAMA Psychiatry mostram que o uso intenso de redes sociais centradas em imagem está associado a maior insatisfação corporal, comportamentos alimentares desordenados e sintomas de ansiedade e depressão. Não é uma relação simples de causa e efeito — ninguém desenvolve um transtorno alimentar apenas por ver fotos no Instagram. Mas as redes funcionam como um amplificador silencioso de vulnerabilidades que muitas mulheres já carregam há anos.
Como o algoritmo molda a forma como você se vê
Aqui está algo que poucas pessoas param para pensar: o algoritmo das redes sociais não foi feito para te mostrar conteúdos verdadeiros, e sim para te manter o maior tempo possível na plataforma. Isso significa que ele aprende rapidamente o que prende a sua atenção — mesmo que esse “prender” seja desconfortável.
Se você assiste a um vídeo sobre dieta detox por curiosidade, o algoritmo passa a entender que esse é um tema relevante para você. Em pouco tempo, seu feed começa a ser povoado por:
- Conteúdos de “antes e depois” prometendo transformações rápidas
- Cardápios extremamente restritivos disfarçados de “alimentação limpa”
- Mulheres com corpos parecidos, em poses parecidas, com legendas parecidas
- Discursos repetidos sobre “disciplina”, “força de vontade” e “controle”
- Comparações implícitas que ativam o sentimento de inadequação
O resultado, no longo prazo, é uma espécie de imersão em um mundo paralelo onde o normal é estar em dieta, onde corpos magros são apresentados como sinônimo de saúde e onde comer parece sempre exigir uma justificativa. Esse ambiente cria o que pesquisadores chamam de “comparação social ascendente”: você se compara, o tempo todo, com pessoas que parecem estar acima de você em algum critério inalcançável.
E é importante lembrar: muitas das imagens que circulam ali são editadas, com filtros, ângulos calculados e iluminação profissional. Mesmo as fotos vendidas como “naturais” passam por escolhas estéticas que não refletem a realidade do corpo no espelho de casa, no fim de um dia cansativo.
Os sinais de que sua relação com as redes está afetando sua relação com a comida
No consultório, costumo perceber alguns sinais recorrentes em mulheres cujo uso das redes sociais está alimentando um sofrimento silencioso com a comida e o corpo. Alguns deles são:
- Você se pesa, se mede ou se compara depois de usar Instagram ou TikTok
- Sua escolha do que comer é influenciada pelo que viu em vídeos curtos no celular
- Você sente culpa quando come algo que uma “influencer fitness” não comeria
- Seu humor cai consideravelmente após sessões mais longas de scroll
- Você esconde o que come, ou tira foto da comida pensando em postar e depois desiste por achar que não está “bonita o bastante”
- Já reduziu refeições por se sentir “gorda” depois de ver determinada conta
- Sente uma sensação difusa de inadequação, mesmo sem conseguir nomear de onde ela vem
Esses sinais, isoladamente, não significam um transtorno alimentar. Mas eles podem indicar o que a literatura chama de disordered eating — comportamentos alimentares desordenados que ainda não fecham critérios diagnósticos, mas que sofrem por dentro. E que merecem cuidado.
Como a psicologia trabalha essa relação no consultório
O caminho terapêutico para mulheres que sentem que as redes sociais estão afetando sua saúde mental e alimentar não passa por “ficar offline para sempre”. Seria irreal — e ineficaz. As redes fazem parte da nossa vida, e o trabalho não é negá-las, mas mudar a relação com elas e, principalmente, com você mesma.
Na minha prática, utilizo principalmente a Terapia do Esquema e abordagens da psiconutrição. Algumas das frentes que costumamos trabalhar incluem:
- Identificar os esquemas ativados pelas redes, como inadequação/vergonha, padrões inflexíveis, autossacrifício e privação emocional
- Entender o histórico individual: pouca gente desenvolve uma relação saudável com a comida do nada, e as redes geralmente ativam dores que já existiam antes
- Construir uma alfabetização crítica de mídia, aprendendo a perceber o que é editado, patrocinado, comercial
- Trabalhar a autocompaixão, que é uma das principais proteções contra a comparação social
- Resgatar a percepção corporal interna, com práticas inspiradas no comer intuitivo e no mindful eating
Não existe uma fórmula universal. Cada mulher chega com uma história, uma família, uma cultura e uma trajetória de dietas, ganhos e perdas. O trabalho da psicoterapia é, justamente, entender o que sustenta o sofrimento naquele caso específico — e construir, junto, formas mais saudáveis de existir num mundo digital que, queiramos ou não, faz parte do cotidiano.
Vale lembrar também que o Código de Ética do Conselho Federal de Psicologia (CFP) orienta que o psicólogo não promete curas ou resultados rápidos. O que oferecemos é um espaço seguro, sigiloso, baseado em evidências, para que você possa se entender melhor e construir, no seu próprio ritmo, mudanças que façam sentido na sua vida.
Pequenos cuidados práticos enquanto a terapia acontece
Mesmo que você ainda não esteja em acompanhamento psicológico, alguns ajustes simples no uso das redes podem reduzir o impacto sobre sua relação com a comida. Eles não substituem terapia, mas funcionam como cuidado complementar:
- Faça uma faxina no feed: silencie ou deixe de seguir contas que te deixam pior depois de ver
- Diversifique o que entra na sua bolha — siga corpos, idades, formas, profissões e culturas variadas
- Observe como você se sente antes e depois de abrir um aplicativo, sem julgamento
- Estabeleça pequenos limites de tempo, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade emocional
- Se uma conta te empurra para um comportamento alimentar restritivo, isso já é um sinal de que ela não te faz bem, mesmo que pareça inspirar
Como saber se é hora de buscar ajuda?
Se ao ler este artigo você se reconheceu em vários trechos, vale considerar conversar com um profissional de saúde mental. Não por dramatismo, e sim por cuidado. Quanto mais cedo se trabalha a relação com o corpo, com a comida e com as redes, mais leve costuma ser o caminho.
A psicoterapia não promete que vai ser fácil ou rápido. Mas é um espaço para entender por que determinadas imagens te atingem tanto — e para construir, aos poucos, uma relação diferente com seu próprio corpo, sua história e o que você consome digitalmente todos os dias.
Se quiser saber mais sobre como funciona o meu trabalho, entre em contato e conversamos.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico, médico ou nutricional individualizado.
Ana Caroline Belekewice — Psicóloga CRP 08/35178
Especialista em Terapia do Esquema e Psiconutrição | Atendimento online para mulheres


