Nos últimos anos, medicamentos injetáveis como semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) se tornaram um dos assuntos mais comentados quando o tema é emagrecimento. Nas redes sociais, em consultórios e em conversas do dia a dia, as chamadas “canetas emagrecedoras” aparecem como uma solução moderna, eficaz e cada vez mais acessível.
E de fato, do ponto de vista médico, esses medicamentos têm resultados comprovados para perda de peso em pessoas com obesidade e condições metabólicas associadas. Mas existe uma dimensão dessa conversa que raramente aparece: o que acontece com a mente, com as emoções e com a relação com a comida de quem usa esses medicamentos?
E mais especificamente: qual é o impacto para quem tem ou já teve um transtorno alimentar?
É sobre isso que este artigo fala — com informação, cuidado e sem julgamento.
O que são as canetas emagrecedoras e como elas funcionam?
As canetas emagrecedoras pertencem a uma classe de medicamentos chamados agonistas do GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1). Eles atuam em receptores do cérebro e do sistema digestivo, promovendo:
- Redução do apetite e da fome
- Aumento da sensação de saciedade
- Esvaziamento gástrico mais lento
- Regulação da glicose no sangue
O resultado é que muitas pessoas relatam simplesmente “não sentir fome” ou perder o interesse pela comida — algo que para muitos parece libertador, mas que do ponto de vista psicológico merece atenção cuidadosa, especialmente em pessoas com histórico de transtornos alimentares.
Canetas emagrecedoras e transtornos alimentares: qual é o risco?
Essa é a pergunta central que profissionais de saúde mental precisam fazer — e que infelizmente ainda é pouco considerada antes da prescrição desses medicamentos.
Os transtornos alimentares como anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP) e ortorexia têm raízes profundas na relação emocional com a comida, com o corpo e com o controle. Quando um medicamento entra nessa equação e suprime fisicamente a fome, algumas dinâmicas preocupantes podem se instalar.
1. Reforço de comportamentos restritivos
Para mulheres com histórico de anorexia ou comportamentos restritivos, a supressão do apetite provocada pela caneta pode ser experienciada como um alívio perigoso. “Finalmente não sinto fome” pode soar como libertação, mas na prática reforça a crença de que comer menos é sempre melhor — e pode aprofundar padrões já existentes de restrição.
O problema é que o medicamento age no corpo, mas não age na mente. Os esquemas emocionais que sustentam o transtorno — como a crença de que o valor pessoal está atrelado ao peso ou ao controle alimentar — continuam intocados.
2. Gatilhos para a compulsão alimentar
Para mulheres com TCAP ou bulimia, o cenário pode ser diferente mas igualmente preocupante. A supressão artificial da fome pode funcionar por um período — mas quando o medicamento é pausado, reduzido ou quando o corpo desenvolve resistência, a fome retorna. E muitas vezes retorna com intensidade.
Sem o trabalho emocional que aborda por que a compulsão acontece, o comportamento tende a retornar — muitas vezes com mais culpa e vergonha do que antes, por ter “fracassado” mesmo com o auxílio do medicamento.
3. Dissociação do corpo e dos sinais internos
Um dos objetivos centrais do tratamento de transtornos alimentares é ajudar a pessoa a reconectar com os sinais do próprio corpo — fome, saciedade, prazer, desconforto. Esse processo, chamado de alimentação intuitiva, é lento e exige muito trabalho terapêutico.
O uso de medicamentos que suprimem artificialmente esses sinais pode dificultar — ou até reverter — esse processo. A pessoa deixa de aprender a confiar no corpo porque o corpo, farmacologicamente, está sendo silenciado.
4. Surgimento ou intensificação de transtornos alimentares
Estudos e relatos clínicos têm apontado que, em algumas pessoas sem histórico prévio de transtorno alimentar, o uso de GLP-1 pode precipitar comportamentos disfuncionais com a alimentação. A perda de apetite extrema, a aversão a alimentos e a relação cada vez mais controlada com a comida podem abrir portas para padrões que antes não existiam.
“Emagrecer não é sinônimo de ter uma relação saudável com a comida. Esses são dois processos diferentes — e precisam ser tratados de formas diferentes.”
Isso significa que canetas emagrecedoras são proibidas para quem tem transtorno alimentar?
Não necessariamente. Essa é uma decisão que deve ser tomada de forma individualizada, com acompanhamento médico e psicológico integrado.
Existem situações em que o uso criterioso desses medicamentos pode fazer parte de um plano de tratamento mais amplo — especialmente em casos de obesidade grave com comorbidades metabólicas. Mas isso exige:
- Avaliação detalhada do histórico de transtorno alimentar
- Acompanhamento psicológico ativo durante todo o uso
- Monitoramento dos padrões alimentares, não apenas do peso
- Um plano claro para o momento em que o medicamento for suspenso
O que não é seguro é iniciar o uso dessas medicações sem nenhum suporte emocional — e infelizmente isso é o que acontece na maioria dos casos.
O que acontece quando a caneta é suspensa?
Essa é talvez a pergunta mais importante e menos discutida de toda essa conversa.
Estudos mostram que a maioria das pessoas recupera o peso perdido quando para de usar os medicamentos GLP-1. Isso acontece porque o medicamento trata o sintoma, não a causa. Quando ele sai, a fome retorna, os padrões alimentares anteriores tendem a voltar e com eles, todo o peso emocional que nunca foi processado.
Para mulheres com transtornos alimentares, esse momento pode ser especialmente difícil. A sensação de “fracasso”, a retomada do peso, o reencontro com a fome tudo isso pode reativar esquemas emocionais profundos de vergonha, defectividade e descontrole.
É exatamente por isso que o trabalho psicológico não pode ser adiado para “depois que emagrecer”. Ele precisa acontecer em paralelo — ou antes.
Qual é o papel da psicoterapia nesse contexto?
A psicoterapia, especialmente abordagens como a terapia do esquema e a terapia cognitivo-comportamental voltada para transtornos alimentares, oferece algo que nenhum medicamento consegue: a possibilidade de transformar a relação emocional com a comida, com o corpo e consigo mesma.
Enquanto a caneta age no corpo suprimindo a fome, a psicoterapia trabalha nas perguntas que realmente importam a longo prazo:
- Por que eu uso a comida para lidar com emoções difíceis?
- Quais crenças sobre meu corpo e meu valor eu carrego desde a infância?
- O que acontece emocionalmente quando eu “perco o controle” com a comida?
- Como posso construir uma relação mais gentil e sustentável comigo mesma?
Essas não são perguntas que um medicamento responde. São perguntas que exigem tempo, presença e um espaço terapêutico seguro.
“A caneta pode reduzir o peso no corpo. A terapia trabalha o peso que você carrega por dentro — e esse costuma ser muito mais pesado.”
Perguntas frequentes
Posso usar caneta emagrecedora se já tive anorexia ou bulimia?
Essa decisão deve ser tomada com cuidado e sempre com acompanhamento especializado. O histórico de transtorno alimentar é um fator relevante que precisa ser considerado pelo médico prescritor e idealmente discutido também com um psicólogo. Em muitos casos, o risco de reativação do transtorno é real e precisa ser monitorado de perto.
A terapia pode substituir o medicamento para emagrecer?
A psicoterapia não tem como objetivo principal a perda de peso. Seu foco é transformar a relação emocional com a comida e com o corpo. Em muitos casos, quando esse trabalho avança, o comportamento alimentar se torna mais equilibrado e o peso se regula naturalmente, mas esse não é o objetivo central, e sim uma possível consequência de um processo mais profundo.
Estou usando a caneta agora. Devo parar?
Não tome essa decisão sozinha. O mais importante é que você tenha acompanhamento psicológico enquanto usa o medicamento para monitorar como sua relação com a comida e com o corpo está sendo afetada, e para trabalhar as questões emocionais que o medicamento não resolve.
Como sei se tenho um transtorno alimentar?
Transtornos alimentares se manifestam de formas muito diferentes e nem sempre são evidentes. Se você percebe que sua relação com a comida gera sofrimento, culpa, vergonha, comportamentos de controle intenso ou que está muito conectada à sua autoestima e ao seu valor como pessoa, vale buscar uma avaliação com uma psicóloga especializada.
Uma palavra final
Não existe solução simples para uma relação complexa com a comida e com o corpo. As canetas emagrecedoras podem ser uma ferramenta útil em determinados contextos médicos, mas elas não chegam perto de resolver o que está por trás de um transtorno alimentar.
Se você está considerando usar esse tipo de medicamento, já usa ou parou de usar e está sentindo os efeitos emocionais disso, você merece um espaço para falar sobre o que está vivendo.
Sou Ana Caroline Belekewice, psicóloga especializada em transtornos alimentares com formação em terapia do esquema. Atendo mulheres adultas que querem entender e transformar sua relação com a comida, com o corpo e consigo mesmas, com ou sem o uso de medicamentos.
Entre em contato para agendar uma sessão de avaliação. Estou aqui para conversar.
Ana Caroline Belekewice | Psicóloga CRP 08/35178 | anacarolinepsico.com.br



