Tem uma semana do mês em que tudo fica mais difícil. A mesma barra de chocolate que estava intocada na gaveta há dias começa a ocupar um espaço estranho na cabeça. Você abre o armário sem motivo. Pensa em sobremesa logo depois do almoço. Sente uma irritação esquisita quando alguém come algo doce na sua frente. Para muitas mulheres que atendo, a vontade de comer doce na TPM não é uma escolha, é uma onda que chega e parece tomar conta de tudo. E quase sempre vem acompanhada de uma pergunta silenciosa: por que eu não consigo controlar isso?
Antes de qualquer coisa, eu preciso te dizer uma coisa: você não está sem força de vontade. O que acontece no seu corpo entre a ovulação e a menstruação é real, é biológico e tem nome. Mas não é só biológico e é aí que mora a parte interessante.
Por que a vontade de comer doce na TPM aparece com tanta força
Entre dois e dez dias antes da menstruação, o corpo passa por uma queda brusca de progesterona e estrogênio. Essa queda mexe com a serotonina, o neurotransmissor que regula humor, sono e saciedade. Quando a serotonina cai, o cérebro procura uma forma rápida de subir de novo. E carboidrato simples — especialmente açúcar — é o atalho mais eficiente que ele conhece.
Um estudo de 2025 publicado na Frontiers in Public Health analisou mulheres com sintomas pré-menstruais e encontrou um aumento significativo da “fome hedônica” (vontade de comer pelo prazer, não pela necessidade) na fase lútea tardia. Quanto mais intensos os sintomas de TPM, maior a frequência de desejo por doces, salgadinhos e ultraprocessados. Não é fraqueza. É química.
Outro ponto que aparece nas pesquisas: a progesterona influencia diretamente o sistema de recompensa do cérebro. Quando ela cai, a sensibilidade ao “reforço” do alimento aumenta. Em termos práticos: o mesmo brigadeiro que numa terça-feira no meio do ciclo seria gostoso e suficiente, numa quinta-feira pré-menstrual vira algo que você quase não consegue parar de pensar.
Quando a TPM encontra a restrição: o ciclo que ninguém te conta
Aqui entra a parte que eu quase nunca vejo sendo dita em outros lugares. A vontade de doce na TPM é biológica, sim. Mas a forma como ela se manifesta e a intensidade com que toma conta — depende muito da sua relação com a comida no resto do mês.
Mulheres que passam a primeira fase do ciclo tentando “comer certo”, evitando doces, contando calorias ou restringindo grupos alimentares costumam viver uma TPM completamente diferente. Quando a queda hormonal chega, ela encontra um corpo já em alerta de privação. O resultado é uma vontade que não parece mais uma vontade, parece uma urgência. E muitas vezes termina em episódio compulsivo, seguido de culpa, seguido de “segunda-feira eu começo de novo”.
Esse padrão tem nome e tem mecanismo. Eu falei mais sobre ele neste artigo sobre o ciclo restrição-compulsão, e ele é uma das coisas que mais aparecem nos meus atendimentos. A TPM não cria o problema — ela amplifica o que já está acontecendo no resto do mês.
O que me chama atenção, na prática clínica, é que muitas mulheres descobrem que não têm “uma TPM tão ruim quanto pensavam” depois que param de brigar com a comida o resto do mês. A oscilação hormonal continua, mas a tempestade muda de intensidade.
Fome hormonal, fome emocional ou as duas?
Uma das perguntas que mais escuto é: “Mas então, doutora, é hormônio ou é emocional?”. A resposta honesta é: quase sempre são os dois ao mesmo tempo.
A TPM não afeta só o apetite. Ela afeta o humor, o sono, a tolerância à frustração, a paciência com você mesma. Em uma semana em que você está mais sensível, mais cansada, mais irritada, qualquer desconforto emocional pesa mais. E a comida — especialmente a doce — sempre foi uma forma rápida e disponível de aliviar desconforto.
Se você quiser entender melhor essa diferença entre o que é fome do corpo e o que é busca de regulação emocional, eu escrevi sobre isso em mais detalhe aqui. Vale a leitura junto com este.
Na prática, na fase pré-menstrual, o que acontece é uma sobreposição: a queda da serotonina aumenta a busca por doce, e ao mesmo tempo as emoções estão mais à flor da pele. Você não está inventando a fome. Mas também não é só fome.
O que fazer com a vontade de doce na TPM (sem entrar em guerra)
Vou te dizer o que eu não recomendo, primeiro: tentar “passar por cima” da vontade. Resistir, contar a quantos dias está sem doce, distrair-se com chá, andar pela casa esperando a vontade ir embora. Funciona por um tempo. Depois, geralmente, vira compulsão.
O que costuma funcionar de verdade, na minha experiência clínica com mulheres adultas:
1. Comer o doce, mas comer com presença. Sentada, sem celular, mastigando devagar, sentindo o sabor. A maioria das compulsões de TPM acontece em pé, na cozinha, no automático, com a sensação de que você “não pode” estar fazendo aquilo. Tirar o doce do lugar do proibido tira muito da força que ele tem.
2. Não pular refeições nessa fase. Manter regularidade alimentar — três refeições principais com proteína suficiente — diminui a intensidade dos picos de vontade. Pular o jantar achando que “compensa” o doce da tarde costuma piorar tudo no dia seguinte.
3. Identificar os outros gatilhos. A vontade de doce que aparece às 22h, depois de um dia exaustivo, talvez não seja só hormonal. Talvez seja o único momento do dia em que você se permite algo prazeroso. Esse padrão merece olhar.
4. Mapear o ciclo. Anotar por dois ou três meses quando a vontade aparece, em que dia do ciclo, com que intensidade, em que situações. Esse mapeamento muda muita coisa. A pessoa começa a entender que a vontade não é aleatória — ela tem ritmo. E entender o ritmo já tira parte do desespero.
5. Cuidar do sono. Mulheres que dormem mal na fase pré-menstrual têm picos de vontade muito mais intensos no dia seguinte. Sono curto altera leptina e grelina, os hormônios do apetite, e empilha mais combustível no fogo.
Quando procurar ajuda profissional
Vontade de doce na TPM, por si só, é fisiológica e não precisa de tratamento. Mas tem alguns sinais que indicam que vale conversar com uma psicóloga especializada em comportamento alimentar:
Episódios de comer em grande quantidade em pouco tempo, com sensação de perda de controle. Culpa intensa depois de comer doce, mesmo em quantidade pequena. Comer escondido nos dias pré-menstruais. Compensar com restrição extrema nos dias seguintes. Pensamentos sobre comida ocupando boa parte do seu dia. Se algum desses pontos te toca, vale buscar acompanhamento, a TPM pode estar funcionando como amplificador de um padrão que precisa ser tratado.
Uma paciente que atendi por quase um ano me disse, depois de seis meses de terapia: “eu não percebia que minha vida toda gira em torno de comer, não comer, e me arrepender do que comi”. A TPM era só uma semana mais difícil dentro de um padrão que durava o mês inteiro.
Perguntas frequentes sobre vontade de comer doce na TPM
Vontade de doce na TPM é sinal de algum problema hormonal?
Na maioria das vezes, não. É uma resposta fisiológica esperada à queda de progesterona e serotonina na fase lútea tardia. Se vier acompanhada de TPM muito intensa, com sintomas que prejudicam sua vida, vale investigar transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) com ginecologista.
Comer chocolate na TPM ajuda mesmo?
Em parte. O chocolate amargo tem magnésio e compostos que ajudam na produção de serotonina. Mas o efeito de bem-estar imediato vem principalmente do açúcar elevando a glicemia rapidamente. Não tem nada de errado em comer, desde que não vire compulsão.
Como diferenciar fome de TPM de compulsão alimentar?
A vontade de doce na TPM costuma ser perceptível, recorrente, mas controlável. A compulsão alimentar envolve perder o controle sobre a quantidade, comer escondido, sentir culpa intensa depois, e geralmente acontece em todo o mês, não só na fase pré-menstrual.
Por que eu sinto vontade de doce só à noite na TPM?
A serotonina varia ao longo do dia e tende a estar mais baixa no fim da tarde e à noite. Some isso à queda pré-menstrual, ao cansaço acumulado do dia e ao fato de a noite ser um momento de menor controle racional, e você tem a tempestade perfeita.
Tomar pílula anticoncepcional diminui a vontade de doce na TPM?
Para algumas mulheres, sim — porque estabiliza as oscilações hormonais. Para outras, não muda nada ou até piora. Não existe resposta universal. Essa conversa precisa ser feita com sua ginecologista.
O que eu queria que você levasse daqui
Vontade de comer doce na TPM não é falha de caráter, não é fraqueza e não precisa virar uma luta. O corpo está fazendo o que aprendeu a fazer há muito tempo: buscar uma forma rápida de subir a serotonina quando ela despenca. O que muda tudo é o que você faz com essa vontade — e a relação que você tem com a comida nos outros 23 dias do mês.
A mulher que come um bombom na quinta-feira pré-menstrual depois do almoço, presta atenção no sabor e segue o dia, não tem TPM melhor que a sua. Ela só não está em guerra com a própria fome. E isso, quase sempre, não é uma questão hormonal — é uma questão clínica, emocional, construída ao longo de anos. E é justamente isso que pode ser cuidado em terapia.
Se você se reconheceu em algum momento desse texto, e quer conversar sobre como está sua relação com a comida — não só na TPM, mas no resto do mês também — minha agenda está aberta. Você pode me encontrar aqui.


