Mounjaro e Compulsão Alimentar: O Que a Psicologia Tem a Dizer

Psicóloga e pós-graduanda em Psiconutrição. Atua com Terapia do Esquema e atendimentos online, ajudando mulheres a fortalecerem sua autoestima e a construírem uma relação saudável com a comida.

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A relação entre Mounjaro e compulsão alimentar tem gerado muitas dúvidas. Será que um medicamento pode resolver padrões alimentares emocionais? Este artigo explora essa questão com base em evidências científicas e na perspectiva da psicologia e psiconutrição.

O Que É o Mounjaro?

Mounjaro (tirzepatida) é um medicamento aprovado para tratamento de diabetes tipo 2. Ele atua imitando dois hormônios naturais – GLP-1 e GIP – que regulam açúcar no sangue e sensação de saciedade.

Estudos recentes mostram que a tirzepatida também promove perda de peso significativa, o que levou à sua crescente procura para controle de peso. Porém, é fundamental entender: trata-se de medicação de prescrição médica, não uma solução estética livre.

Compulsão Alimentar: Mais Que Fome Física

Compulsão alimentar é caracterizada por episódios recorrentes de ingestão de grandes quantidades de comida em curto período, acompanhados de sensação de perda de controle. Os sinais incluem:

  • Comer rapidamente, mesmo sem fome física
  • Sentir vergonha ou culpa após os episódios
  • Comer escondido ou sozinho por constrangimento
  • Usar comida para lidar com emoções difíceis

Esta condição envolve componentes psicológicos profundos e pode estar associada ao Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), que requer tratamento especializado.

Mounjaro Trata Compulsão Alimentar?

A resposta curta: não diretamente.

Pesquisas indicam que a tirzepatida pode reduzir o apetite e influenciar áreas cerebrais relacionadas ao controle de impulsos. Alguns pacientes relatam menor frequência de episódios compulsivos enquanto usam o medicamento.

Porém, há uma diferença crucial entre reduzir a fome fisiológica e tratar os gatilhos emocionais da compulsão. O medicamento pode diminuir o sintoma, mas não aborda as causas psicológicas subjacentes.

O Que Dizem as Pesquisas

Estudos sobre medicamentos similares (como semaglutida) sugerem potencial benefício em comportamentos alimentares compulsivos, mas os pesquisadores são claros: o tratamento psicológico permanece essencial para resultados duradouros.

Por Que Apenas o Medicamento Não Basta

A compulsão alimentar tem múltiplas camadas:

Camada emocional: Ansiedade, estresse, tristeza, tédio ou trauma podem desencadear episódios. Medicamentos não processam essas emoções.

Camada cognitiva: Crenças distorcidas sobre corpo, peso e comida mantêm o ciclo compulsivo. É preciso reestruturar esses pensamentos.

Camada comportamental: Padrões aprendidos ao longo da vida precisam ser substituídos por estratégias saudáveis de enfrentamento.

Camada social: Cultura da dieta, pressão estética e relações com comida na família influenciam profundamente o comportamento alimentar.

A Abordagem Integrada: O Caminho Mais Eficaz

Psicoterapia

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é considerada tratamento de primeira linha para compulsão alimentar, com evidências científicas robustas. Ela ajuda a:

  • Identificar gatilhos emocionais
  • Desenvolver habilidades de regulação emocional
  • Modificar pensamentos disfuncionais sobre comida e corpo
  • Construir estratégias de enfrentamento saudáveis

Psiconutrição

Vai além de planos alimentares, integrando aspectos psicológicos da alimentação:

  • Alimentação intuitiva e consciente
  • Ressignificação da relação com comida
  • Trabalho com permissão alimentar (fim da restrição)
  • Compreensão dos sinais de fome e saciedade

Acompanhamento Médico

Quando há indicação para medicação, o endocrinologista avalia riscos, benefícios e monitora efeitos. Importante: Mounjaro pode causar náuseas, vômitos e outros efeitos que, ironicamente, podem piorar a relação com comida em alguns casos.

Possíveis Riscos de Focar Apenas na Medicação

Depender exclusivamente de medicamentos para compulsão pode:

  • Reforçar a crença de que você “não tem controle” sem ajuda externa
  • Adiar o trabalho emocional necessário
  • Criar dependência psicológica da medicação
  • Levar à recaída quando o medicamento for interrompido
  • Ignorar traumas ou questões psicológicas mais profundas

Quando Considerar Mounjaro Como Parte do Tratamento

O medicamento pode ser útil quando:

  • Há diabetes tipo 2 ou pré-diabetes associados
  • Obesidade está impactando significativamente a saúde
  • Tratamento psicológico já está em andamento
  • Há supervisão médica e psicológica integradas
  • Paciente compreende que é ferramenta auxiliar, não solução completa

Sinais de Que Você Precisa de Ajuda Profissional

Procure suporte se você:

  • Come grandes quantidades rapidamente, mesmo sem fome
  • Sente perda de controle ao comer
  • Experimenta culpa ou vergonha intensa após comer
  • Usa comida como única forma de lidar com emoções
  • Evita situações sociais por causa da alimentação
  • Já tentou múltiplas dietas sem sucesso duradouro

Onde Buscar Ajuda

Psicólogo especializado em transtornos alimentares: Trabalha os aspectos emocionais e comportamentais.

Nutricionista com formação em psiconutrição: Aborda alimentação de forma não restritiva e integrativa.

Psiquiatra ou endocrinologista: Avalia necessidade de suporte medicamentoso quando apropriado.

Grupos de apoio: Oferecem acolhimento e troca de experiências.

O Caminho Para Uma Relação Saudável Com a Comida

Superar compulsão alimentar não é sobre força de vontade ou controle rígido. É sobre:

  • Compreender suas emoções e necessidades
  • Desenvolver formas saudáveis de autocuidado
  • Cultivar autocompaixão em vez de autocrítica
  • Construir uma relação de paz com comida e corpo
  • Receber apoio profissional adequado

Conclusão: Corpo e Mente Trabalham Juntos

Mounjaro pode ter seu lugar no tratamento de certas condições, mas quando falamos de compulsão alimentar, a abordagem precisa ser integrada. Medicamentos podem ajustar a biologia, mas apenas o trabalho psicológico transforma a relação com a comida.

Se você está lutando com compulsão alimentar, saiba que isso não é falha de caráter ou falta de disciplina. É um desafio legítimo que merece cuidado profissional, compaixão e tratamento baseado em evidências.

Você merece uma vida onde comer não seja fonte de sofrimento, mas sim de nutrição e prazer. E esse caminho começa com o primeiro passo: buscar ajuda qualificada.


Nota importante: Este artigo tem propósito informativo e educacional. Não substitui avaliação e acompanhamento de profissionais de saúde. Se você ou alguém próximo apresenta sinais de transtorno alimentar, procure ajuda especializada.

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